Foi na véspera do aniversário dos meus 20 anos que fui buscar o meu primeiro par de óculos. Escolhi uma armação de massa de cor preta. Já levava na lente esquerda 2,5 dioptrias e na lenta direita 1,5 dioptrias. Assim como estreia já ía bem apetrechada!
Nem um ano depois, ouço da voz da especialista da optica um "Não tenho a certeza, mas parece-me que tem um problema ócular que eu aqui não posso detectar com toda a clareza, aconselho a ida a um especialista". Lá fui.
Da boca do Oftalmologista1 saiu o pior que podia ter ouvido, uma doença genética, que só se revela a partir da adolescência e que pode levar à cegueira. Ele disse-me basicamente que o mais provavel era dali a 20 anos estar cega. Posso ou não estar cega, porque não é previsivel e cada um tem o seu progresso da doença. Saí de lá de rastos. No carro chorei até desidratar. Em casa pesquisei tudo o que havia a pesquisar na internet.
Um ano após a noticia consultei um outro oftalmologista, fui convicta de que ele me iria dizer que afinal não tinha nada daquilo. Mas ele apenas voltou a confirmar. Nesse dia não me consegui conter e chorei ali mesmo em frente ao Oftalmologista. Afinal não há nada que possa fazer, não posso prevenir, não posso nada. É esperar pelo futuro, no dia em que ficar cega (se ficar cega) a resolução é o transplante de córnea. Até lá não há nada a fazer.
A minha doença genética chama-se queractocone, não me vai matar, mas transformou a minha vida. Graças a ela a minha auto-estima escorregou-me toda pelas mãos. Não penso nisto todos os dias. Mas vivo com a falta de visão todos os dias. Faço piadas e rio-me de mim mesma. Mas há dias em que bate cá fundo. Nesses dias mentalizo-me com a frase feita e tão tipica do portuga "podia ser pior", nesses dias gostava de ser uma daquelas pessoas movidas pela fé.
Não me vai tirar a vida, mas mata-me a auto-estima, dia após dia.








